O escândalo do abuso e a reforma na Igreja

14 de junho de 2021

As preciosas indicações contidas na carta com a qual o Papa Francisco rejeitou a renúncia do cardeal Marx.

Andrea Tonielli

“A reforma na Igreja foi realizada por homens e mulheres que não tiveram medo de entrar em crise e se deixaram reformar pelo Senhor. É o único caminho, do contrário seremos apenas ‘ideólogos da reforma’ que não colocam a própria carne em jogo.”

Este é um trecho da carta com a qual o Papa rejeitou o pedido do cardeal Reinhard Marx de renunciar à liderança da Diocese de Munique e Frisinga. Um texto papal repleto de indicações preciosas, que vão muito além do caso particular para se concentrar mais uma vez no essencial, indicando um olhar e comportamento cristãos diante da realidade. Esse olhar e essa atitude muitas vezes esquecidos quando – mesmo na comunidade eclesial – existe o risco de atribuir valor salvífico às estruturas, ao poder da instituição, às normas legislativas cada vez mais detalhadas e rigorosas, às melhores práticas de negócio, às lógicas de representação política transplantada para os caminhos sinodais, às estratégias de marketing aplicadas à missão, ao narcisismo comunicativo de efeitos especiais.

Afirmar, como faz o Bispo de Roma, que diante do escândalo do abuso “não seremos salvos por investigações nem pelo poder das instituições. Não seremos salvos pelo prestígio de nossa Igreja, que tende a dissimular seus pecados; não seremos salvos pelo poder do dinheiro ou pela opinião da mídia (muitas vezes somos muito dependentes deles)”, significa mais uma vez indicar o único caminho cristão. Pois, escreveu o Papa a Marx, “seremos salvos pela porta do Único que pode fazê-lo e confessar a nossa nudez: ‘Pequei’, ‘pecamos’…”. É no caminho da fraqueza que a Igreja reencontra força, quando não confia em si mesma e não se sente protagonista, mas pede perdão e invoca a salvação do Único que a pode dar.

O que Francisco escreveu na carta ao cardeal de Munique e Frisinga pode parecer para alguém uma “não-resposta”. Porque não nos tira da grade, não fecha a ferida, não nos permite acusar com o dedo levantado os outros que erram. Em vez disso, pede a cada um de nós que “entre na crise” e confesse nossa própria impotência, nossa própria fraqueza, nossa própria pequenez diante do mal e do pecado, seja o satânico do abuso de menores ou o de pensar em salvar a Igreja graças a nossas ideias, nossas estratégias, nossas construções humanas.

O Papa emérito Bento XVI, nas notas preparadas tendo em vista a cúpula para a Proteção de Menores em fevereiro de 2019 e publicadas dois meses depois, questionando-se quais seriam as respostas certas para a chaga dos abusos, escreveu: “O antídoto para o mal que ameaça a nós e o mundo inteiro, ultimamente só pode consistir no fato de nos abandonarmos «ao amor de Deus». Se refletirmos sobre o que fazer, é claro que não precisamos de outra Igreja inventada por nós». Hoje, «a Igreja é amplamente vista apenas como uma espécie de aparato político» e «a crise causada por muitos casos de abusos por parte de sacerdotes nos leva a considerar a Igreja até mesmo como algo errado que devemos definitivamente tomar em nossas mãos e formar de uma nova maneira. Mas uma Igreja feita por nós não pode representar nenhuma esperança».

Em 2010, em meio à tempestade causada pelo escândalo do abuso na Irlanda, o Papa Ratzinger indicou o caminho penitencial como o único viável, dizendo estar convencido de que o maior ataque à Igreja não veio de inimigos externos, mas de dentro. Hoje, o seu sucessor Francisco, com uma consonância de olhares e acentos, nos lembra que a reforma, na Ecclesia semper reformanda, não é realizada por estratégias políticas, mas por homens e mulheres que se deixam “reformar pelo Senhor”.

Fonte: Vatican News

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