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30/03 Notícias da Igreja Uma Quaresma pela Paz (V) – “Pacem in Terris”
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O Papa Bom, como era chamado carinhosamente João XXIII, nos exorta para que “nestes dias sagrados, elevemos suplicante prece a quem com sua dolorosa paixão e morte venceu o pecado, fator de dissensões, misérias e desequilíbrios, e em seu sangue reconciliou a humanidade com o Pai celeste, trazendo à terra os dons da paz.

Pacem in Terris, Paz na Terra, é o nome de uma Encíclica do Papa João XIII, escrita em 1963. O Papa começava essa sua carta afirmando que o grande anseio de paz de toda a humanidade, “não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus” (n.1). E a ordem instituída por Deus, a ordem natural da criação, muitas vezes se vê ameaçada pela “desordem que reina entre indivíduos e povos, como se as suas mútuas relações não pudessem ser reguladas senão pela força” (n.4).

No Evangelho do 4º Domingo da Quaresma (Lc 15,1-3.11-32), constata-se na atitude do filho mais novo o desejo de liberdade e autonomia que cada um traz dentro de si: “‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’ (…). Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada” (Lc 15,12-13). Muitas vezes, é desse desejo de uma autonomia, confundida com individualismo, em que “as minhas regras” são as que dominam as relações, que nascem as guerras.

Papa Bento XVI afirmou que a liberdade só se desenvolve na responsabilidade face a um bem maior”, pois aquilo que faço a dano dos outros, não é liberdade, mas uma ação culpável que prejudica aos outros e a mim mesmo também” (Discurso, 22.09.2011). Ao que parece, aquele desejo de liberdade e autonomia do filho mais novo, estava se desencadeando por esse caminho, que ao invés de fazer crescer só trouxe sofrimento, para outros e para ele próprio. O “esbanjar tudo numa vida desenfreada”, é sinônimo daquele modo de vida que não pensa no outro como dom a ser celebrado, mas o torna objeto do seu prazer, usado e descartado, pois “na realidade, este tipo de olhar cega e fomenta uma cultura de descarte individualista e agressiva, que transforma o ser humano num bem de consumo” (Francisco, Catequese 12.08.2020).

Nesse trecho do Evangelho de Lucas, aparece, também, a figura do filho mais velho: sempre fiel, sempre com seu pai, mas que não reconhecia o profundo amor que o pai tinha por ele (Lc 15,28-31). A atitude desse filho deveria fazer pensar sobre nossa relação de amor para com o Deus e os irmãos. Também esse filho era, ao seu modo, individualista, a ponto de não se alegrar com o reencontro do irmão que tinha se perdido na vida. Em verdade, o mais velho via o irmão mais novo como um concorrente e não como um irmão.

O trecho de Lc 15,11-32 apresenta a figura do Pai que, sem medidas, é capaz de amar e de se deixar amar. O Apóstolo Paulo afirma que Jesus ensinou que “há maior felicidade em dar do que em receber” (At 20,35). Certamente, o coração daquele Pai alegrou-se muito mais em dar o perdão ao filho que lhe foi causa de tanta vergonha, do que o filho tenha se alegrado pelo perdão recebido, pois “há muito mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não carecem de arrependimento” (Lc15,7).

A paz sobre a Terra será possível quando seremos capazes de vencer nossas guerras, movidas pelo egoísmo, pela soberba e pela busca de status. Como afirmou S. João XXIII, “há de considerar-se a convivência humana como realidade eminentemente espiritual: como intercomunicação de conhecimentos à luz da verdade, exercício de direitos e cumprimento de deveres, incentivo e apelo aos bens morais, gozo comum do belo em todas as suas legítimas expressões, permanente disposição de fundir em tesouro comum o que de melhor cada qual possua, anelo de assimilação pessoal de valores espirituais” (n.36).

Em meio ao terrível drama da guerra, que mais uma vez assusta a comunidade humana, a Quaresma se apresenta como tempo especial, para nos deixarmos tocar pela graça de Deus na busca da reconciliação. O mundo espera ansioso a reconciliação entre duas nações, o que se espera venha o mais rápido possível. Porém, Deus espera ansioso, como aquele Pai misericordioso, a nossa reconciliação, com Ele, com os irmãos, com a criação, com a Igreja. Busquemos o Sacramento da Reconciliação, busquemos a reconciliação com algum irmão com quem, talvez, não estejamos em boa relação, busquemos promover a paz entre pessoas que, talvez, estejam distantes umas das outras. Enfim, que a paz na Terra comece com a paz na Terra do nosso coração.

O Papa Bom, como era chamado carinhosamente João XXIII, nos exorta para que “nestes dias sagrados, elevemos suplicante prece a quem com sua dolorosa paixão e morte venceu o pecado, fator de dissensões, misérias e desequilíbrios, e em seu sangue reconciliou a humanidade com o Pai celeste, trazendo à terra os dons da paz: ‘Porque ele é a nossa paz: de ambos os povos fez um só… Veio e anunciou paz a vós que estáveis longe, e a paz aos que estavam perto’ (Ef 2,14-17)” (n.168).

Roma, 30 de março de 2022

Pe. Rafhael Silva Maciel

Missionário da Misericórdia

Vatican News
Imagem capa: Papa João XXIII (Vatican Media)

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