Seja bem-vindo(a) ao Site da Paróquia São Geraldo

Acesse nossas Redes Sociais

Palavra do Padre
ALOISIO VIEIRA

MÊS DE maio de 2026
Compartilhar
Airton Sena – Um ser humano zelando pela vida do outro

Nos dias de hoje, as pessoas estão aceleradas, tudo é urgente, tudo é para ontem. Muitas vezes, são as próprias pessoas que enchem seus dias de afazeres; mas, no geral, a cobrança social é enorme para nunca parar, bater metas, acelerar carreira, desviar de problemas. Isto leva as pessoas ao individualismo e ao isolamento; pois, não sobra tempo para os relacionamentos e para a convivência. Deixa, nos outros ao redor, a impressão de prepotência e de arrogância.

A pandemia favoreceu bastante este contexto. O isolamento enfraqueceu ou esfriou os relacionamentos e eliminou a convivência. O período prolongado de isolamento fez surgir ou valorizou um novo estilo de vida, a solitude. Diante disto, ou a pessoa suportava ou manifestava alguma patologia psicológica ou desenvolvia a solitude. De qualquer forma, a saída do isolamento modificou significativamente o relacionamento e a convivência. Não conseguimos voltar ao que tínhamos. Junta-se a este contexto o desenvolvimento acelerado, a popularização e a acessibilidade das mídias sociais. Tal fato teve impacto profundo.

Nesta nova realidade, a importância do outro, como ser humano, caiu bastante. Reforçou-se, sobre maneira, o utilitarismo nas relações interpessoais. A importância do outro passou a ser medida, fortemente, pelo que ele pode proporcionar ou pelo quanto ele pode ser útil. Mas, isto gerou um buraco afetivo e emocional nas pessoas, que ainda não foi resolvido. Tentativas já foram feitas, com bebê reborn e com os pet’s. O bebê reborn fracassou, mas os pet’s ainda estão em alta.

Os valores humanos intrínsecos e relacionais, como os valores cristãos, foram radicalmente modificados e medidos pelo utilitarismo. “Não existe almoço de graça”, tudo tem preço, monetário ou relacional, cobrado imediatamente ou como crédito para o futuro.

Nesta nova realidade, causa estranheza qualquer gesto de solidariedade ou de fraternidade ou de outro valor cristão. Exemplos: encontrar uma bolça com dinheiro, no metrô de São Paulo, e procurar o dono e devolver tudo; filhos cuidam pessoalmente de seus pais, na velhice; o voluntarismo que não é mais convidativo aos demais, mas visto como uma oportunidade de receber os préstimos, mesmo que indevidamente, e para sempre; os préstimos públicos, como algo coletivo, mas apenas como direito pessoal, ou seja, quando falta à pessoa, causa revolta, indignação e luta, mas quando não falta à pessoa, mas falta aos outros, não implica a pessoa.

A maior vitória de uma pessoa não é conquistar o mundo, é ser capaz de voltar para segurar a mão de alguém que caiu. Se a pessoa quer ser bem sucedida, precisa de dedicação total e de dar o melhor de si, mas nada disso vale se, no mesmo caminho, a pessoa esquecer o valor do que é ser humano.

Em uma reportagem, vi e ouvi esta narração, que me motivou a escrever este artigo. “Vencer faz um campeão, salvar faz um herói, mas ter a humanidade de interromper a própria jornada para sustentar a vida de um semelhante é o que define um mestre. Em 1992, no grande prêmio da Bélgica de Fórmula 1, durante os treinos de sexta-feira, Eric Comas bateu violentamente contra o muro a 300 km por hora. O carro foi arremessado por meio da pista. O piloto ficou inconsciente, mas o seu pé permaneceu cravado no acelerador. O motor estava girando em altas rotações, prestes a explodir, enquanto os outros carros passavam desviando dos destroços. Mas Ayrton Senna pisa no freio, abandona sua McLaren no meio da pista, ignorando o risco de ser atingido pelos outros carros, corre em direção aos destroços. Com uma mão, ele sustenta a cabeça de Comas, para alinhar a coluna, e com a outra, desliga o motor evitando a explosão. Naquele momento, ele ainda não era considerado o rei de Mônaco e não era tricampeão. Apenas um ser humano zelando pela vida do outro. Senna provou que a vida estava acima de qualquer métrica de sucesso ou de status. Esse evento criou um laço entre eles. Em 1994, quando Ayrton sofreu o acidente em Imola, Comas foi o único piloto que tentou romper o grid para ir até o local, movido pelo desejo de retribuir o que o Ayrton tinha feito por ele”.

Pe. Aloísio Vieira