Muitas pessoas consideram São Tomé um incrédulo, até Jesus disse isto: “Em seguida disse a Tomé: ‘Mete aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos, aproxima também a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel.’” (Jo.20,27) O original do Novo Testamento foi escrito em grego antigo e ‘incrédulo’ e ‘fiel’ são antônimos perfeitos; ou seja, uma é oposição a outra. Incrédulo (ápistos) significa literalmente “sem fé”, “aquele que não crê” ou “descrente” e Fiel (pistós) significa “cheio de fé”, “aquele que crê”, “crente” ou “confiável”. O ‘a’, em ápistos, serve exatamente para negar a palavra pistós.
Mas, teologicamente falando, a dúvida de São Tomé nos traz importantíssimas contribuições:
A dúvida dele vai muito além da desconfiança e traz profundas lições sobre a natureza da fé cristã. Mostra que não é uma rejeição a Jesus, mas uma busca por certeza. Jesus entendeu isto e, por esta razão, não o condena nem o expulsa do grupo, mas vai ao encontro de dele e oferece as provas que ele pediu e o acolhe. Aprendamos que a dúvida honesta pode ser um caminho para amadurecer a fé, e não um pecado imperdoável. Dúvida honesta e busca honesta pela verdade.
O ato de São Tomé, ao exigir tocar nas feridas de Jesus, nos ajuda a fundamentar o pilar teológico central que é a ressurreição corporal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não ressuscitou como um espírito, fantasma ou ideia abstrata, mas em carne e osso. Histórica e fisicamente, ajudou a Igreja a pregar que a morte foi materialmente derrotada. As cicatrizes dos cravos e da lança deixam de ser símbolos de derrota, dor ou fracasso e passam a ser os símbolos da vitória e a prova máxima do amor de Deus pela humanidade, identificando e autenticando quem Nosso Senhor Jesus Cristo é.
No versículo 29, do capítulo vinte do evangelho de Nosso Senhor segundo São João, Jesus diz: “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram”. São Tomé é a ponte entre os apóstolos, que viram, pois conviveram com Nosso Senhor, provas físicas; e nós, que não vimos e cremos pela fé na Palavra e pelo Espírito Santo.
São Tomé tinha honestidade intelectual. Ele não queria um Jesus de Instagram, cheio de filtros e frases de efeito. Ele queria o Cristo real, com marcas, com história, com cicatrizes. Ele se recusava a viver uma fé de ouvir dizer. Ele queria o impacto do encontro. Às vezes, a fé inabalável é apenas preguiça de pensar, enquanto a dúvida do outro é um desejo desesperado de encontrar a verdade.
Quando Tomé vê as cicatrizes de Jesus, ele entrega a maior confissão de divindade de todo o Evangelho: Tomé respondeu-lhe: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo.2,28) Ele professou a fé mais profunda e teologicamente perfeita.
Ele foi o único, quando Nosso Senhor decide voltar para a Judeia, onde o povo queria apedrejá-Lo, para ver Lázaro e suas irmãs, a chamar seus companheiros para irem junto com Ele: “Tomé, chamado Dídimo, disse então aos condiscípulos: “Vamos nós também para morrer com ele.” (Jo.11,16) Isto não é fraqueza, indecisão, mas coragem.
São Tomé tem muito a nos ensinar, com suas palavras e testemunho, sobre a autenticidade do discipulado, sobre a honestidade intelectual do seguimento, sobre a fé encarnada, sobre a coragem de quem tem fé etc.
Conta a história que São Tomé não estava com os discípulos, quando Nossa Senhora os reuniu para despedir-se deles, quando foi elevada ao céu. Ele estava a caminho. Mas, Nossa Senhora o esperou chegar para se despedir.
São Tomé, rogai por nós.
Pe. Aloisio Vieira