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Palavra do Padre
ALOISIO VIEIRA

MÊS DE agosto de 2026
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Fé – Razão – Santidade – uma reflexão

O Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, sintetizou uma das máximas da teologia e filosofia cristã da seguinte maneira: gratia non tollit naturam, sed perficit (A graça não tolhe a natureza, mas a aperfeiçoa). Em vez de aniquilar sua humanidade, a santidade eleva, cura e aperfeiçoa as suas faculdades naturais.

Seus talentos, sua inteligência, seus gostos e até a sua personalidade não são apagados quando você busca a santidade, mas purificados e direcionados para o bem. A fé não exige que você abandone a sua racionalidade, mas usa a razão iluminada para compreender verdades mais profundas. A graça divina atua em suas inclinações naturais (inclusive as paixões e emoções) para transformá-las em virtudes sólidas.

A nossa natureza (quem nós somos, nossos talentos, nossa inteligência e nossa humanidade) é como um violão e a graça (o amor, a força e a ajuda espiritual que vêm de Deus) é como um músico excelente. O músico não quebra e nem joga o violão fora para fazer música. Ele afina o instrumento e toca uma melodia linda nele. O músico não destrói o violão, ele extrai o melhor que o violão pode dar.

A graça de Deus entra em nossa vida para elevar e melhorar aquilo que nós já temos por natureza. Ela cura as nossas fraquezas humanas e potencializa as nossas qualidades. Naturalmente somos inteligentes e estudamos a ciência, a graça dá a essa inteligência a sabedoria e o propósito para fazer o bem. Naturalmente amamos nossa família e amigos, a graça expande esse amor, nos tornando capazes de amar até mesmo os nossos inimigos.

Vamos examinar o caráter e o temperamento. O temperamento nasce conosco (é biológico, natureza), enquanto o caráter é construído por nós (é cultural e moral). O caráter é o que construímos encima do nosso temperamento. Essa é a definição clássica da psicologia e da formação humana: o temperamento é o nosso terreno natural e o caráter é o edifício que construímos sobre ele. Enquanto o temperamento é genético e imutável, o caráter é moldado pela nossa vontade, pelas nossas escolhas e pelas virtudes que nós decidimos cultivar. A graça santificante, quando decidimos acolhê-la em nós, atua na construção de nosso caráter. A música, quando o músico acolhe em si a graça santificante, torna-se a melhor que o conjunto (violão e músico) podem oferecer, sem que o violão (temperamento) seja jogado fora ou quebrado ou o músico (caráter) seja considerado ineficaz ou aquém do que poderia se esperar.

Assim, a graça santificante ou a santidade, quanto mais nos aprofundamos nela, nos tornamos melhores, sem sermos despersonalizados. A fé não exige que abandonemos a nossa natureza ou deixemos o protagonismo na construção do nosso caráter, ao contrário, nos ajuda a atingir a excelência na construção do nosso caráter. A excelência aqui é o amadurecimento constante na santidade, segundo nossa capacidade, e não o chegar ao ponto final. Lembremos o que São Pedro nos diz: “Como filhos obedientes, não vos conformeis com os desejos do vosso passado quando estáveis na ignorância, mas, à imitação do (Deus) Santo que vos chamou, sede vós também santos em todas as ações, porque está escrito: Sereis santos, porque eu sou santo” (1Pd.1,15-16). O primeiro Papa mencionava o Livro de Levítico: “Eu sou o Senhor vosso Deus; sede santos, porque eu sou santo; não vos mancheis com o toque de algum réptil que se arrasta sobre a terra” (Lv.11,44). Como vemos, tanto o Livro do Levítico quanto o primeiro Papa não nos exortam a atingir a santidade plena, pois isto só a Trindade Santa é capaz, mas que caminhemos na santidade, amadureçamos na santidade.

Desta maneira, ficarmos parados, ou seja, entra ano e sai ano e nós permanecemos no mesmo lugar, não nos qualifica na santidade. Precisamos continuar nos convertendo, amadurecendo constantemente, nos aproximando de Nosso Senhor Jesus Cristo cada vez mais. Porém, conduzidos pelo Divino Espírito Santo, para não cairmos em extremismos ou nos desviarmos do caminho, achando que estamos no caminho certo. “Jesus disse-lhe: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim’” (Jo.14,6). Chegar a Nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a aspiração do cristão. Tentar se igualar a Ele ou reduzi-Lo à nossa estatura é se perder completamente.

Pe. Aloísio Vieira