Seja bem-vindo(a) ao Site da Paróquia São Geraldo

Acesse nossas Redes Sociais

Palavra do Padre
ALOISIO VIEIRA

MÊS DE março de 2026
Compartilhar
CF e Quaresma

Acabei se assistir o Pe. José Carlos Pereira, que todo ano lança um vídeo no youtube sobre a Campanha da Fraternidade. A CF deste ano traz o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo.1,14).

A iniciativa de realizar a Campanha da Fraternidade foi idealizada por três padres da Cáritas Brasileira (Monsenhor Hilário Pandolfo, Pe. Edmundo Leising e Monsenhor Alfred Schneider) em 1961 e apresentada a Dom Eugênio de Araújo Sales (então administrador apostólico de Natal). Foi implementada, como um projeto piloto, na quaresma do ano seguinte, 1962. O objetivo inicial era arrecadar fundos para as atividades assistenciais da Cáritas Brasileira e despertar a solidariedade local. Devido ao sucesso em Natal, a CF expandiu-se para 16 dioceses do Nordeste em 1963, até ser lançada oficialmente em nível nacional pela CNBB em 1964, com o tema “Igreja em Renovação”.

Em todas as suas 63 edições, contando com a deste ano, a CF versou sobre moradia três vezes: 01 – Em 1985, com o tema Fraternidade e Moradia e o lema: “Um teto para cada irmão”, no contexto de redemocratização do Brasil, onde focou na denúncia do déficit habitacional e na luta por condições dignas de vida nas periferias urbanas. 02 – Em 1993, com o tema Fraternidade e Moradia e o lema: “Onde moras?” (Jo.1,38), no contexto da retomada da temática, oito anos depois, para aprofundar a reflexão sobre o direito e sobre a exclusão social gerada pela falta de políticas habitacionais. 03 – Deste ano, 2026, com o tema Fraternidade e Moradia e o lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo.1,14), no contexto da busca por despertar a consciência sobre a moradia como um direito humano fundamental e expressão da fé cristã, destacando a realidade da população em situação de rua.

Além destas três, também devemos listar a CF de 2016, com o tema “Casa Comum, nossa responsabilidade” e o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am.5,24), também tangenciou o tema moradia, sob a ótica do saneamento básico e do meio ambiente.

A Campanha da Fraternidade nos chama a atenção, a cada ano, para um aspecto essencial da vida em sociedade que precisa de conversão social e pessoal, que precisa ser mudado em sua realidade atual, para oferecer vida digna aos seres humanos. A CF foca principalmente na transformação social da realidade apresentada. Ela deve ser abraçada por toda a Igreja e por cada cristão.

No entanto, devemos ter em mente que a quaresma é bem maior que a CF. A CF sempre objetivou mais a conversão social (sociológica e antropológica), uma conversão horizontal e não uma conversão vertical (Metafísica e sobrenatural); sempre se baseou na crença da não necessidade de conversão vertical; isto é, na crença de que o cristão, em sua essência, precisa se voltar mais para os irmãos do que para Deus diretamente, pois sempre considerou que a conversão para os irmãos é sinal de conversão para Deus.

De fato, há a necessidade urgente desta conversão social, mas esta conversão não acontece (pelo menos pelos motivos corretos) sem primeiro a conversão para Deus, sem que a pessoa norteie sua vida pelos valores e princípios evangélicos. “E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas (Mt.22,37-40). E aqui está, em meu entender, a diferença de estatura entre a quaresma e a CF. Nos dias de hoje também precisamos de conversão pessoal, diante da perca dos valores evangélicos, da fluidez e volatilidade no trato e na vivência dos princípios evangélicos. Valores e princípios evangélicos são contraditos, nos dias de hoje, até mesmo por quem se diz cristão de fé (pena de morte, aborto, eutanásia, união de pessoas do mesmo sexo, desqualificação do matrimônio e da família, pedofilia etc.). Em resumo: a CF é muito importante e nos traz sempre UM aspecto essencial que necessita de conversão social, a cada ano; mas está dentro da quaresma, é parte da quaresma. A CF e a Quaresma não se opõem uma à outra, mas não estão no mesmo contexto. A CF não resume a quaresma.

A força motriz da solidariedade humana e da luta social para transformar a realidade e garantir vida digna às pessoas não vem exclusivamente da fé em Deus, Uno e Trino, segundo os Evangelhos. A solidariedade e a luta social têm a sua força motriz na humanidade, tenha a pessoa ou o grupo a crença que tiver ou não tenha crença nenhuma.

Pe. Aloísio Vieira