Celebração da Palavra e Homília

31 de maio de 2018

5º Encontro

 Introdução

VATICANO II – 50 ANOS:Maior acontecimento eclesial do século xx

1. A decisão de João XXIII de convocar um Concílio Ecumênico brotou logo após sua eleição. Em conversa com Mons. Capovilla, seu secretário particular, no dia 30 de outubro de 1958, dois dias após sua eleição para o supremo pontificado, o novo papa lhe confidencia que a situação da Igreja estava a exigir um Concílio. No dia 25 de janeiro de 1959, solenidade da Conversão de São Paulo, o Papa João XXIII anuncia a convocação do Concílio. 
2. Abertura do Concílio se deu no dia 11 de outubro de 1962. De acordo com o calendário litúrgico da época, celebrava-se nesse dia a Solenidade da Santa Mãe de Deus.

3. O Papa João XXIII presidiu somente a primeira sessão do Concílio, pois, veio a falecer no dia 03 de junho de 1963. Coube a Paulo VI levar o Concílio adiante. O encerramento, após quatro sessões, deu-se no dia 08 de dezembro de 1965, Solenidade da Imaculada Conceição.

A Constituição Sacrosanctum Concilium explicita os objetivos do Vaticano II:

· Fomentar a vida cristã entre os fiéis,
·  adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança,
· promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo,
·  e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja.

4.  Os Documentos do Vaticano II são os seguintes:

Constituição Dogmática sobre a Igreja –Lumen Gentium

Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação – Dei Verbum

Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo de Hoje – Gaudium et Spes

Constituição sobre a Sagrada Liturgia – Sacrosanctum Concilium

Decreto sobre o Ecumenismo – Unitatis Redintegratio

Decreto sobre as Igrejas Orientais Católicas – Orientalium Ecclesiarum

Decreto sobre a Atividade Missionária da Igreja – Ad Gentes

Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja – Christus Dominus

Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Presbíteros – Presbyterorum Ordinis

Decreto sobre a Atualização dos Religiosos – Perfectae Caritatis

Decreto sobre a Formação Sacerdotal – Optatam totius

Decreto sobre o Apostolado dos Leigos – Apostolicam Actuositatem

Decreto sobre os Meios de Comunicação Social – Inter Mirifica

Declaração sobre a Educação Cristã – Gravissimum Educationis

Declaração sobre a Liberdade Religiosa – Dignitatis Humanae

Declaração sobre as Relações da Igrejacom as Religiões Não-Cristãs – Nosatra Aetate

A SACROSANCTUM CONCILIUM 

A Liturgia, pela qual, principalmente no divino Sacrifício da Eucaristia, se exerce a obra de nossa Redenção, contribui do modo mais excelente para que os fiéis exprimam em suas vidas e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja (SC 2).

Capítulo I– Os Princípios Gerais da reforma e do incremento da Liturgia
A natureza da Sagrada Liturgia e sua importância na vida da Igreja

Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. Presente está no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, pois aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na cruz, quanto sobretudo sob as espécies eucarísticas. Presente está pela sua força nos sacramentos, de tal forma que quando alguém batiza é Cristo mesmo que batiza. Presente está pela sua palavra, pois é ele mesmo que fala quando se leem as Sagradas Escrituras na igreja. Está presente finalmente quando a Igreja ora e salmodia” (SC 7). Porém “a Sagrada Liturgia não esgota toda a ação da Igreja (SC 9). Todavia, a Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e ao mesmo tempo é a fonte donde emana toda a sua força (SC 10).

Com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros – presta a Deus o culto público integral (SC 7).

  • 2. Necessidade de promover a formação litúrgica e a participação ativa

“Deseja ardentemente a Mãe Igreja que todos os fiéis sejam levados àquela plena, cônscia e ativa participação das celebrações litúrgicas, que a própria natureza da Liturgia exige e à qual, por força do batismo, o povo cristão ‘geração escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo conquistado’ (1Pd 2,9) tem direito e obrigação. (SC 14).

  • 3. A Reforma da Sagrada Liturgia
    Para efetivar a autêntica reforma litúrgica, o Concílio estabeleceu as seguintes normas gerais:· A regulamentação da Sagrada Liturgia é de competência exclusiva da autoridade da Igreja Portanto, jamais algum outro, ainda que sacerdote acrescente, tire ou mude por própria conta qualquer coisa à Liturgia (SC 22).· Conserve-se a tradição e admita-se o legítimo progresso (SC 23).

· Na celebração litúrgica é máxima a importância da Sagrada Escritura (SC 24).

·  As celebrações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja (SC 26)

· Deve-se preferir a celebração comunitária à celebração individual. Isto vale sobretudo para a celebração da Missa e a administração dos sacramentos (SC 27).

· Nas celebrações litúrgicas cada qual faça tudo aquilo e somente aquilo que lhe compete (28).

·  Para promover uma participação ativa, incentivem-se as aclamações do povo, as respostas, as salmodias, as antífonas e os cânticos, bem como as ações, os gestos e posições do corpo. Seja também guardado o sagrado silêncio, nos momentos previstos (SC 30).

· Também os ajudantes, leitores, comentaristas, cantores, músicos desempenham um verdadeiro ministério litúrgico.  (SC 29).

  • O incremento da vida litúrgica na diocese e na paróquia

O Bispo deve ser tido como o sumo sacerdote de seu rebanho, do qual, de algum modo, deriva e depende a vida de seus fiéis em Cristo. (SC 41).

A vida litúrgica da paróquia e sua relação para com o Bispo devem ser favorecidas na mente e na atividade dos fiéis e do clero. Haja esforço para que floresça o espírito de comunhão paroquial, sobretudo na celebração comunitária da missa dominical (SC 42).

  • 5. A promoção da Pastoral Litúrgica

Haja em cada Diocese uma Comissão de Liturgia para promover a ação litúrgica sob a orientação do Bispo (SC 45).

I – ORIENTAÇÕES PARA A CELEBRAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS/ CNBB – DOCUMENTO 52

  • 1. MINISTÉRIOS LITÚRGICOS

1-A multiplicidade e variedade dos serviços ministeriais que se fazem presentes na celebração litúrgica do povo de Deus é elemento chave na compreensão da comunidade cristã, pois os ministérios, em definitivo, exprimem e definem a própria realidade da Igreja. A inteira assembleia é ministerial porque a Igreja mesma é toda ministerial. E esta ministerialidade se expressa na liturgia através da diversidade de funções e ofícios que cada um é chamado a desempenhar. Ao contrário do que quase sempre sucede no mundo, porém, a hierarquia de funções na Igreja não denota prestígio e nem pode conduzir à acepção de pessoas. Ancorada na mais pura linha evangélica, deve ela indicar compromisso cristão e serviço fraterno em total doação a Deus e aos irmãos.

2-A própria diversidade ministerial da Igreja é fonte de intensa comunhão. E a liturgia, ao reclamar por sua própria natureza, uma participação plena, consciente e ativa nos seus atos, ao mesmo tempo provoca uma diversificada atuação ministerial de todos na celebração, fonte de completo envolvimento. A tal participação litúrgica os fiéis têm direito e dever em virtude do batismo. A atuação ministerial do povo na assembleia cria participação e a participação, por sua vez, é intensificada com a atuação diferenciada dos vários ministros. Serviço ministerial e participação estão, assim, em íntima relação na liturgia desta Igreja “toda ministerial”.

3-Já que, por vontade do próprio Cristo o novo povo de Deus está formado por uma admirável variedade de membros, diversos também são as funções e os ofícios que correspondem a cada um, no que se refere à Palavra de Deus: aos fiéis cabe escutá-la e meditá-la; sua explicação, porém, corresponde apenas àqueles que, pela sagrada ordenação, tem a função ministerial, ou aqueles aos quais foi confiado este ministério.

2.  SIGNIFICADO DE PALAVRA

  • No dicionário:

Palavra é um termo, um vocábulo, uma expressão.  É uma manifestação verbal ou escrita formada por um grupo de fonemas com uma significação. Do latim parábola.

Palavra é um conjunto de sons articulados que expressam ideias e são representados por uma grafia, formada por uma reunião de letras, que quando agrupadas formam as frases.

2.2.Na Bíblia:

Qual é o significado de “no princípio era o Verbo”?

O evangelho de João abre com a declaração que “no princípio era o Verbo”. O significado disso está explicado a seguir e mostra que Jesus é Deus. Em outras traduções, a palavra “verbo” é traduzida como “palavra”.

  • Jesus é o Verbo, ou a Palavra. Tudo que João 1 fala sobre o Verbo se refere a Jesus. Essa passagem nos mostra a relação de Jesus com Deus Pai e com cada um de nós. Para entender melhor o significado disso, é preciso ver o contexto:

Antes de qualquer outra coisa existir, Deus já existia. Ele é eterno, sem começo nem fim. Foi Ele que criou tudo que existe no princípio, através de Sua Palavra (Gênesis 1:3). Deus falou e tudo se formou! A Palavra de Deus é Seu poder ativo sobre o mundo.

João 1:3 diz que, sem a Palavra de Deus, nada pode existir. Do nada, nada surge. Tudo foi formado pela Palavra poderosa de Deus.

O Verbo estava com Deus e era Deus

A segunda parte de João 1:1 apresenta o Verbo, ou a Palavra, como algo intimamente ligado a Deus. A Palavra de Deus é Deus. Não podemos separar Deus de Seu poder ativo. Sua Palavra, suas ações têm vida e são parte dele!

Porque Jesus era o Verbo?

O Verbo se fez carne

A Palavra de Deus se tornou um homem! Deus falou e Sua Palavra, que é parte dele, se tornou uma pessoa de carne e osso (João 1:14). E essa pessoa era Jesus. Todo o poder de Deus está em Jesus, porque ele é a Palavra de Deus. Jesus é Deus agindo sobre o mundo, Se relacionando conosco.

3. MINISTÉRIO DA PALAVRA

SENTIDO LITÚRGICO DA CELEBRAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

            1-“Entre as formas celebrativas que se encontram na tradição litúrgica, é muito recomendada a celebração da Palavra de Deus”, para o alimento da fé, da comunhão e do compromisso do Povo de Deus. Ela é ação litúrgica reconhecida e incentivada pelo Concílio Vaticano II: “Incentive-se a celebração sagrada da Palavra de Deus, nas vigílias das festas mais solenes, em algumas férias do Advento e da Quaresma, como também nos domingos e dias santos, sobretudo naqueles lugares onde falta o padre”.

2-É nesta celebração que muitas comunidades encontram  o alimento de sua vida cristã. Formadas por gente simples, em luta pela sobrevivência e mais abertas à solidariedade, estas comunidades, espontaneamente, unem a Escritura à vida e, criativamente, integram preciosos elementos da religiosidade popular e de sua cultura.

3-Pela Palavra de Deus, as comunidades celebram o mistério de Cristo em sua vida. Depois dos sacramentos, a celebração da Palavra é a forma mais importante de celebrar. Isto exige de nós uma reflexão teológica mais aprofundada e uma maior atenção pastoral.

4-A Palavra de Deus está viva e atuante hoje na comunidade eclesial. Deus continua a falar aos seus filhos em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo. Vale-se da comunidade dos fiéis que celebra a liturgia, para que a sua Palavra se propague e seja conhecida, e seu nome seja louvado por todas as nações.

5-A Palavra de Deus é um “acontecimento” através do qual o próprio Deus entra no mundo, age, cria, intervém na História do seu povo para orientar sua caminhada. “Ela é como a chuva e a neve que descem do céu e para lá não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, dando semente ao semeador e o pão ao que come. Ela não torna a ele sem ter produzido fruto e sem ter cumprido a sua vontade”. Ela é poder e força criadora de Deus que se dirige pessoalmente a cada um, hoje. Nesta perspectiva, as celebrações da Palavra, sob a ação do Espírito Santo, se constituem em memória reveladora dos acontecimentos maravilhosos da salvação. O testemunho de vida do próprio ministro da Palavra tem sua importância.

Memória e presença de Jesus Cristo
O centro e a plenitude de toda a Escritura e de toda a celebração litúrgica é Jesus Cristo, palavra e sinal do amor com que Deus intervém e age para salvar seu povo: presença divina ativa entre nós.Ele é uma presença contínua na Igreja através da Eucaristia e dos demais sacramentos, da assembleia e do ministro, da Palavra proclamada e da oração comunitária. “Onde se proclama a sua soberania aí está o Senhor presente”, e, realizando o mistério da salvação, nos santifica e presta ao Pai o culto perfeito. A liturgia é a celebração da obra salvífica de Cristo. É ele quem realiza o projeto do Pai.
Ação e presença do Espírito Santo

  • O ambiente celebrativo da Palavra de Deus evidencia a relação existente entre a Palavra proclamada e celebrada e a ação do Espírito Santo. “Para que a Palavra de Deus realmente produza nos corações aquilo que se escuta com os ouvidos, requer-se a ação do Espírito, por cuja inspiração a Palavra de Deus se converte em fundamento, em norma e ajuda de toda a vida. A atuação do Espírito Santo não só precede, acompanha e segue toda a ação litúrgica, mas também sugere ao coração de cada um tudo aquilo que, na proclamação da Palavra de Deus, foi dito para toda a comunidade dos fiéis; e, ao mesmo tempo em que consolida a unidade de todos, fomenta também a diversidade de carismas e a multiplicidade de atuações”.
  • A acolhida da Palavra, a oração de louvor, de ação de graças e de súplica que ela suscita, é ação do Espírito, “pois não sabemos o que pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis”. “Ninguém pode dizer Senhor Jesus, senão pelo Espírito Santo”. A escuta da Palavra de Deus se torna compromisso de fé e de conduta cristã pela força do Espírito Santo. “Tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvintes”. Deste modo, o Espírito de Deus introduz os fiéis na celebração e na experiência cristã da riqueza libertadora da Palavra de Deus e por ele a Palavra se transforma em acontecimento de salvação no coração da História.
  • O Espírito Santo agiu na vida de Cristo, ele está presente e atua na vida dos seguidores do Ressuscitado. Vivifica a ação celebrativa tornando-a frutuosa para a comunidade eclesial, que atualiza o passado e antecipa os definitivos acontecimentos da salvação na esperança da glória futura.
  • Ação ministerial

A proclamação eclesial e litúrgica da Palavra de Deus é uma realidade ministerial. Por vontade divina, o novo povo de Deus está formado por uma variedade de membros; por esta razão, são também vários os serviços e as funções que correspondem a cada um, no que se refere à Palavra de Deus. Na celebração, cada um tem o direito e o dever de contribuir com sua participação, de modo diferente segundo a diversidade de função e de ministérios.

  • Relação entre a Palavra de Deus e a Eucaristia

1-A Igreja cresce e se edifica ao escutar a Palavra de Deus e ao celebrar a eucaristia como memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo, até que ele venha. A Palavra de Deus proclamada conduz à plenitude do mistério pascal de Cristo crucificado e ressuscitado. Com efeito, o mistério pascal de Cristo, anunciado nas leituras e na homilia, realiza-se por meio da Eucaristia.

2-Palavra de Deus e mistério eucarístico foram honrados pela Igreja com a mesma veneração, embora com diferente culto. “A Igreja sempre quis e determinou que assim fosse, porque, impelida pelo exemplo de seu fundador, nunca deixou de celebrar o mistério pascal de Cristo, reunindo-se para ler todas as passagens da Escritura que a ele se referem e realizando a obra da salvação, por meio do memorial do Senhor”.

3-“A Igreja alimenta-se com o Pão da Vida na mesa da Palavra de Deus e do Corpo de Cristo”. “Na Palavra de Deus se anuncia a aliança divina e na Eucaristia se renova esta mesma aliança nova e eterna. Na Palavra recorda-se a história da salvação, na Eucaristia a mesma história se expressa por meio de sinais sacramentais”. Portanto, a Palavra conduz à Eucaristia. Se, por um lado, a Palavra encontra sua realização na Eucaristia, por outro a Eucaristia tem seu fundamento na Palavra.

  • O domingo, dia do Senhor e da comunidade.

1-O domingo é uma instituição de origem especificamente cristã. Começou com a reunião dos primeiros cristãos para celebrar a memória da morte e ressurreição de Jesus Cristo que se deu no primeiro dia da semana. A celebração do Senhor ressuscitado e a ação de graças — eucaristia — são os elementos essenciais do domingo cristão. Os irmãos reunidos oravam, escutavam a Palavra e eram alimentados com o alimento divino — fração do pão.

2-O domingo é o dia da Igreja. Dia da comunidade reunida em nome do Senhor. Nesse mesmo dia, o Filho enviou de junto do Pai, o Espírito Santo sobre seus discípulos. E os enviou como mensageiros da Boa Nova.  O dia do Senhor devia ser vivido na alegria, dia da grande libertação, sinal profético da reunião universal de todos os eleitos diante do Trono de Deus, cantando seus louvores.

  • 1. A HOMILIA

Hoje a Igreja deseja viver uma profunda renovação missionária, há uma forma de pregação que nos compete a todos como tarefa diária: é cada um levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos como aos desconhecidos. É a pregação informal que se pode realizar durante uma conversa, e é também a que realiza um missionário quando visita um lar. Ser discípulo significa ter a disposição permanente de levar aos outros o amor de Jesus; e isto sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na praça, no trabalho, num caminho.

Consideremos agora a pregação dentro da Liturgia, que requer uma séria avaliação por parte dos Pastores. Fixaremos, e até com certa meticulosidade, na homilia e sua preparação, porque são muitas as reclamações relacionadas com este ministério importante, e não podemos fechar os ouvidos. A homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo.

São Paulo fala vigorosamente sobre a necessidade de pregar, porque o Senhor quis chegar aos outros por meio também da nossa palavra (cf. Rm 10, 14-17). Com a palavra, Nosso Senhor conquistou o coração da gente. De todas as partes, vinham para O ouvir (cf. Mc 1, 45). Ficavam maravilhados, bebendo os seus ensinamentos (cf. Mc 6, 2). Sentiam que lhes falava como quem tem autoridade (cf. Mc 1, 27). E os Apóstolos, que Jesus estabelecera para estarem com Ele e para os enviar a pregar (Mc 3, 14), atraíram para o seio da Igreja todos os povos com a palavra (cf. Mc 16, 15.20).

A homilia é um retomar este diálogo que já está estabelecido entre o Senhor e o seu povo. Aquele que prega deve conhecer o coração da sua comunidade para identificar onde está vivo e ardente o desejo de Deus e também onde é que este diálogo de amor foi sufocado ou não pôde dar fruto. A homilia não pode ser um espetáculo de divertimento, não corresponde à lógica dos recursos mediáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração. É um género peculiar, já que se trata de uma pregação no quadro duma celebração litúrgica; por conseguinte, deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferência ou uma lição. O pregador pode até ser capaz de manter vivo o interesse das pessoas por uma hora, mas assim a sua palavra torna-se mais importante que a celebração da fé. Se a homilia se prolonga demasiado, lesa duas características da celebração litúrgica: a harmonia entre as suas partes e o seu ritmo.

  • A Preparação da Pregação.

A preparação da pregação é uma tarefa tão importante que convém dedicar-lhe um tempo longo de estudo, oração, reflexão e criatividade pastoral. A confiança no Espírito Santo que atua na pregação não é meramente passiva, mas ativa e criativa. Implica oferecer-se como instrumento (cf. Rm 12, 1), com todas as próprias capacidades, para que possam ser utilizadas por Deus. Um pregador que não se prepara não é espiritual: é desonesto e irresponsável quanto aos dons que recebeu. Alguns passos poderão nos ajudar.

O primeiro passo, depois de invocar o Espírito Santo, é prestar toda a atenção ao texto bíblico, que deve ser o fundamento da pregação. Quando alguém se detém procurando compreender qual é a mensagem dum texto, exerce o culto da verdade. É a humildade do coração que reconhece que a Palavra sempre nos transcende, que somos, não os árbitros nem os proprietários, mas os depositários, os arautos e os servidores. Não vale a pena dedicar-se a ler um texto bíblico, se aquilo que se quer obter são resultados rápidos, fáceis ou imediatos. Por isso, a preparação da pregação requer amor. Uma pessoa só dedica um tempo gratuito e sem pressa às coisas ou às pessoas que ama; e aqui trata-se de amar a Deus, que quis falar. A partir deste amor, uma pessoa pode deter-se todo o tempo que for necessário, com a atitude dum discípulo: “Fala, Senhor; o teu servo escutar”.

Devemos insistir em algo que parece evidente, mas que nem sempre é tido em conta: o texto bíblico, que estudamos, tem dois ou três mil anos, a sua linguagem é muito diferente da que usamos agora. Por mais que nos pareça termos entendido as palavras, que estão traduzidas na nossa língua, isso não significa que compreendemos corretamente tudo o que o escritor sagrado queria exprimir. São conhecidos os vários recursos que proporciona a análise literária: prestar atenção às palavras que se repetem ou evidenciam, reconhecer a estrutura e o dinamismo próprio do texto, considerar o lugar que ocupam os personagens, etc. Mas o objetivo não é o de compreender todos os pequenos detalhes do texto; o mais importante é descobrir qual é a mensagem principal, a mensagem que confere estrutura e unidade ao texto. Se o pregador não faz este esforço, é possível que também a sua pregação não tenha unidade nem ordem; o seu discurso será apenas uma súmula de várias ideias desarticuladas que não conseguirão mobilizar os outros.

O pregador deve ser o primeiro a desenvolver uma grande familiaridade pessoal com a Palavra de Deus: não lhe basta conhecer o aspecto linguístico, sem dúvida necessário; precisa de se abeirar da Palavra com o coração dócil e orante, a fim de que ela penetre a fundo nos seus pensamentos e sentimentos e gere nele uma nova mentalidade. Faz-nos bem renovar, cada dia, cada domingo, o nosso ardor na preparação da homilia, e verificar se, em nós mesmos, cresce o amor pela Palavra que pregamos. É bom não esquecer que, particularmente, a maior ou menor santidade do ministro influi sobre o anúncio da Palavra. Como diz São Paulo, «falamos, não para agradar aos homens, mas a Deus que põe à prova os nossos corações» (1 Ts 2, 4). Se está vivo este desejo de primeiro, ouvirmos nós a Palavra que temos de pregar, esta transmitir-se- -á de uma maneira ou doutra ao povo fiel de Deus: «A boca fala da abundância do coração» (Mt 12, 34). As leituras do domingo ressoarão com todo o seu esplendor no coração do povo, se primeiro ressoarem assim no coração do Pastor.

Quem quiser pregar, deve primeiro estar disposto a deixar-se tocar pela Palavra e fazê-la carne na sua vida concreta. Não nos é pedido que sejamos imaculados, mas que não cessemos de melhorar, vivamos o desejo profundo de progredir no caminho do Evangelho, e não deixemos cair os braços. Indispensável é que o pregador esteja seguro de que Deus o ama, de que Jesus Cristo o salvou, de que o seu amor tem sempre a última palavra. Na presença de Deus, numa leitura tranquila do texto, é bom perguntar-se, por exemplo: “Senhor, o que me diz este texto”? Com esta mensagem, que quereis mudar na minha vida? Que é que me revela neste texto? Porque é que isto não me interessa?; ou então: «De que gosto? Em que me estimula esta Palavra? Que me atrai? E porque me atrai?». Quando se procura ouvir o Senhor, é normal ter tentações. Uma delas é simplesmente sentir-se chateado e acabrunhado e dar tudo por encerrado; outra tentação muito comum é começar a pensar naquilo que o texto diz aos outros, para evitar de o aplicar na própria vida.

O pregador deve também pôr-se à escuta do povo, para descobrir aquilo que os fiéis precisam de ouvir. Um pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo. Trata-se de relacionar a mensagem do texto bíblico com uma situação humana, com algo que as pessoas vivem, com uma experiência que precisa da luz da Palavra.

Alguns acreditam que podem ser bons pregadores por saber o que devem dizer, mas descuidam o como, a forma concreta de desenvolver uma pregação. Zangam-se quando os outros não os ouvem ou não os apreciam, mas talvez não se tenham empenhado por encontrar a forma adequada de apresentar a mensagem. Já dizia Paulo VI que os fiéis «esperam muito desta pregação e dela poderão tirar fruto, contanto que ela seja simples, clara, direta, adaptada». A simplicidade tem a ver com a linguagem utilizada. Deve ser linguagem que os destinatários compreendam, para não correr o risco de falar ao vento. O maior risco de um pregador é habituar-se à sua própria linguagem e pensar que todos os outros a usam e compreendem espontaneamente. Se se quer adaptar à linguagem dos outros, para poder chegar até eles com a Palavra, deve-se escutar muito, é preciso partilhar a vida das pessoas e prestar-lhes benévola atenção. A simplicidade e a clareza são duas coisas diferentes. A linguagem pode ser muito simples, mas pouco clara a pregação. Pode-se tornar incompreensível pela desordem, pela sua falta de lógica, ou porque trata vários temas ao mesmo tempo. Por isso, outro cuidado necessário é procurar que a pregação tenha unidade temática, uma ordem clara e ligação entre as frases, de modo que as pessoas possam facilmente seguir o pregador e captar a lógica do que lhes diz.

  • Uma evangelização para o aprofundamento do querigma.

O mandato missionário do Senhor inclui o apelo ao crescimento da fé, quando diz: «ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28, 20). Daqui se vê claramente que o primeiro anúncio deve desencadear também um caminho de formação e de amadurecimento. A evangelização procura também o crescimento, o que implica tomar muito a sério em cada pessoa o projeto que Deus tem para ela. Cada ser humano precisa sempre mais de Cristo, e a evangelização não deveria deixar que alguém se contente com pouco, mas possa dizer com plena verdade: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gal 2, 20).

Voltámos a descobrir que também na catequese tem um papel fundamental o primeiro anúncio ou querigma, que deve ocupar o centro da atividade evangelizadora e de toda a tentativa de renovação eclesial. O querigma é trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: «Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar». Ao designar-se como «primeiro» este anúncio, não significa que o mesmo se situa no início e que, em seguida, se esquece ou substitui por outros conteúdos que o superam; é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, de uma forma ou doutra, durante a catequese, em todas as suas etapas e momentos. Por isso, também o sacerdote, como a Igreja, deve crescer na consciência da sua permanente necessidade de ser evangelizado.

Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a tarefa catequética, e permite compreender adequadamente o sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. Outra característica da catequese, que se desenvolveu nas últimas décadas, é a iniciação mistagógica,que significa essencialmente duas coisas: a necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém toda a comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã.  Anunciar Cristo significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a vida de um novo esplendor e de uma alegria profunda, mesmo no meio das provações. Nesta perspectiva, todas as expressões de verdadeira beleza podem ser reconhecidas como uma senda que ajuda a encontrar-se com o Senhor Jesus.

Embora possa soar óbvio, o acompanhamento espiritual deve conduzir cada vez mais para Deus, em quem podemos alcançar a verdadeira liberdade. Alguns crêem-se livres quando caminham à margem de Deus, sem se dar conta que ficam existencialmente órfãos, desamparados, sem um lar para onde possam sempre voltar. Deixam de ser peregrinos para se transformarem em errantes, que giram indefinidamente ao redor de si mesmos, sem chegar a lado nenhum. Precisamos de nos exercitar na arte de escutar, que é mais do que ouvir. Escutar, na comunicação com o outro, é a capacidade do coração que torna possível a proximidade, sem a qual não existe um verdadeiro encontro espiritual. Escutar ajuda-nos a individuar o gesto e a palavra oportunos que nos desinstalam da cómoda condição de espectadores. Só a partir desta escuta respeitosa e compassiva é que se pode encontrar os caminhos para um crescimento genuíno, despertar o desejo do ideal cristão, o anseio de corresponder plenamente ao amor de Deus.

Não é só a homilia que se deve alimentar da Palavra de Deus. Toda a evangelização está fundada sobre esta Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada. A Sagrada Escritura é fonte da evangelização. Por isso, é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja não evangeliza, se não se deixa continuamente evangelizar. É indispensável que a Palavra de Deus se torne cada vez mais o coração de toda a atividade eclesial. A Palavra de Deus ouvida e celebrada, sobretudo na Eucaristia, alimenta e reforça interiormente os cristãos e torna-os capazes de um autêntico testemunho evangélico na vida diária. Superámos já a velha contraposição entre Palavra e Sacramento: a Palavra proclamada, viva e eficaz, prepara a recepção do Sacramento e, no Sacramento, essa Palavra alcança a sua máxima eficácia.

O estudo da Sagrada Escritura deve ser uma porta aberta para todos os crentes. É fundamental que a Palavra revelada fecunde radicalmente a catequese e todos os esforços para transmitir a fé. Nós não procuramos Deus tateando, nem precisamos de esperar que Ele nos dirija a palavra, porque realmente Deus falou, já não é o grande desconhecido, mas mostrou-Se a Si mesmo. Acolhamos o tesouro sublime da Palavra revelada!

Bibliografia:

  • Rocha, D. Geraldo Lyrio. Sobre a Sagrada Liturgia, Apostila usada naFormação do Clero da Diocese de Itabira-Fabriciano, 2014.
  • Melo, José Raimundo de. Professor de Liturgia na Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção, SP.
  • Papa Francisco, Evangelii Gaudium, Paulinas, 2014.
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