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02/07 Notícias da Igreja O cisma de Lefebvre se repete após 38 anos
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Apesar das generosas tentativas dos santos Paulo VI e João Paulo II, da decisão de revogar a excomunhão tomada por Bento XVI e das faculdades concedidas por Francisco, com as consagrações ilícitas realizadas contra a vontade do Papa, a Fraternidade volta a separar-se de Roma.

Andrea Tornielli

É uma história conturbada, marcada por tentativas generosas, portas mantidas abertas e oportunidades oferecidas. É uma história dolorosa, assinalada por duas graves rupturas que levaram a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada pelo arcebispo Marcel Lefebvre, a separar-se do Papa e da comunhão com a Igreja de Roma, consagrando bispos sem mandato pontifício. A ruptura consumada em 1º de julho passado tem consequências graves não apenas para os bispos e sacerdotes lefebvrianos, mas para todos os fiéis, uma vez que — como se lê na Nota Explicativa do Dicastério para a Doutrina da Fé — os sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal “administram ilicitamente os sacramentos e que o sacramento da penitência por eles administrado e o matrimônio por eles assistido são inválidos”.

As decisões de Lefebvre

Durante o Concílio Vaticano II, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, embora pertencesse à minoria contrária a algumas reformas, assinou tanto a Constituição sobre a Liturgia quanto a Declaração sobre a Liberdade Religiosa.

Depois de fundar, em 1970, a Fraternidade São Pio X em Écône, Lefebvre recusou-se a celebrar segundo o novo Missal e, em 1974, definiu as reformas conciliares como “novidades destruidoras da Igreja”, declarando por escrito sua rejeição à Roma “neo-modernista”. A diocese retirou o reconhecimento da Fraternidade, mas Paulo VI buscou o diálogo, solicitando o fechamento do seminário. Diante das repetidas recusas, Lefebvre foi suspenso a divinis, mas continuou a celebrar publicamente. Em 1976, recebido em Castel Gandolfo, o encontro com o Papa não produziu resultados. Paulo VI confiou ao filósofo Jean Guitton sua dor diante daquilo que definiu como “a primeira verdadeira cruz” de seu pontificado, sem, contudo, querer transformar a falta de comunhão em uma excomunhão formal.

O acordo doutrinal assinado por Lefebvre

Com a eleição de João Paulo II, Lefebvre demonstrou maior abertura, declarando, em 1980, não ter dúvidas sobre a legitimidade do novo Papa. Em abril de 1988, o cardeal Joseph Ratzinger conduziu uma negociação de três dias com o arcebispo, chegando a um protocolo doutrinal comum, assinado em 5 de maio: a Fraternidade São Pio X prometia fidelidade à Igreja e ao Pontífice, aceitava o Magistério conciliar e reconhecia a validade da Missa celebrada segundo os ritos de Paulo VI e João Paulo II. Estava prevista também a consagração de um bispo da Fraternidade Sacerdotal. Tudo parecia resolvido.

O primeiro ato cismático

Em 6 de maio de 1988, Lefebvre voltou atrás no acordo, anunciando a intenção de consagrar novos bispos sem mandato pontifício, temendo que Roma não escolhesse candidatos provenientes da própria Fraternidade Sacerdotal. Apesar de um novo encontro e de um telegrama de Ratzinger pedindo, “por amor a Cristo e à sua Igreja”, que renunciasse às ordenações, em 30 de junho de 1988 Lefebvre, juntamente com o bispo brasileiro Antônio de Castro Mayer, consagrou quatro novos bispos: Fellay, de Galarreta, Williamson e Tissier de Mallerais. Em 1º de julho entrou em vigor a excomunhão latae sententiae por ato cismático. Nos anos seguintes, a Santa Sé mostrou-se disposta a conceder soluções canônicas, enquanto os lefebvrianos continuaram a invocar a falta de “clareza doutrinal”, exigindo, na prática, que a Igreja renunciasse a partes do Concílio.

A peregrinação de 2000 e as concessões de Bento XVI

Em agosto de 2000, os lefebvrianos realizaram uma peregrinação jubilar a Roma, e Dom Fellay foi recebido por João Paulo II. Os contatos se intensificaram com Bento XVI, que em 2007 liberalizou o uso do Missal pré-conciliar com o Motu Proprio Summorum Pontificum e, em 24 de janeiro de 2009, revogou a excomunhão dos quatro bispos consagrados por Lefebvre. A decisão, porém, foi ofuscada pela divulgação de uma entrevista na qual um dos bispos reabilitados, Richard Williamson, havia expressado posições negacionistas sobre o extermínio dos judeus, desencadeando duras críticas contra o Papa, que esperava dos lefebvrianos um compromisso em favor da plena comunhão com a Igreja.

O preâmbulo de 2011 e as faculdades concedidas por Francisco

Em setembro de 2011, ao término dos diálogos doutrinais, a Santa Sé pediu à Fraternidade Sacerdotal que subscrevesse um breve texto que exigia adesão ao magistério pontifício, sem excluir o debate teológico sobre o Concílio. Fellay considerou o documento inaceitável. As soluções canônicas propostas posteriormente não chegaram a bom termo, pois os lefebvrianos declararam não buscar prioritariamente um reconhecimento jurídico. Com o Papa Francisco, durante o Jubileu da Misericórdia de 2016, foram concedidas aos sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal faculdades especiais para as confissões, posteriormente prorrogadas de forma estável, em um gesto de abertura pastoral para com os fiéis.

Novo cisma, confissões e matrimônios inválidos

Em 2 de fevereiro de 2026, a Fraternidade São Pio X anuncia a consagração de novos bispos para 1º de julho. Em 12 de fevereiro, o superior da Fraternidade Sacerdotal, padre Davide Pagliarani, é recebido em Roma pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. O prefeito propôs aos lefebvrianos “um caminho de diálogo especificamente teológico, com uma metodologia muito precisa, sobre temas que ainda não receberam um esclarecimento suficiente”, para evidenciar “os mínimos necessários para a plena comunhão com a Igreja Católica” e alcançar uma solução canônica. “A possibilidade de realizar esse diálogo pressupõe que a Fraternidade suspenda a decisão das ordenações episcopais anunciadas.”

Apesar dos apelos e convites ao diálogo, os lefebvrianos seguiram adiante, decretando um novo cisma. Questionado por jornalistas em Castel Gandolfo, em 16 de junho, Leão XIV comentou que a divisão entre os cristãos é sempre dolorosa, mas que, uma vez que eles rejeitam elementos fundamentais da Igreja, a começar pelo Concílio Vaticano II, “se fazem essa escolha, eu lamento, mas nós devemos seguir em frente”.

Vatican News
Imagem capa: Pexels

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